Jogo de Espelhos


Uma pessoa sentada no meio de uma sala mal iluminada, perdida em algum lugar do século XIX. Escurece lá fora e as sombras vão se alongando. Ela está só, pensando consigo mesma, imóvel. Só o tempo se arrasta. O espelho a reflete, mas ela não suporta olhar para a imagem. Sons de passos, alguém bate na porta. Ela pergunta quem é, mas não há ninguém do outro lado. Ela se agita. Sua mente agora trabalha muito rápido. Parece haver alguém no quarto junto com ela. Seria o Gato? Não. Sua presença é opressora. Ela tenta escapar, mas não consegue. Levanta-se, começa a andar pelo recinto, ofegante e agoniada. Procura algo. Abre as gavetas. Esbarra no lampião sobre a escrivaninha, cheia de cogumelos e uma gaiola dentro da qual está um narguile. Ela tenta chorar, mas as lágrimas não saem. Está presa! Perdeu a chave. Olha enfim para o espelho.

O terror a observa de volta.


O quarto era desses medianos, nem tão grande, nem tão pequeno a ponto de não ter espaço de andar. Os móveis eram velhos, a maioria do século passado, como os que ainda são encontrados em muitas casas de famílias antigas e tradicionais: uma cama de dossel que rangia ao mero toque, um guarda-roupa de madeira preta perfumada e um velho espelho oval emoldurado, escuro e corroído, que ficava sempre coberto com um pano. Num canto, encostada na parede descascada, uma escrivaninha com um lampião de gás tremeluzente e alguns pássaros pretos empalhados.

As sombras se alongavam pelo recinto, dando-lhe um aspecto decadente. Tudo ali exalava a abandono, como se tivesse sido habitado por alguma velhinha muito idosa, morta há décadas, mas que deixara suas preferências, seu perfume e lembranças encravados em cada porta-jóia, em cada perna de mesa, em cada mínimo detalhe.

Próximo à janela, sentada em uma cadeira reta, quase se confundindo com a mobília, havia uma jovem pálida vestida com uma camisola branca. Estava imóvel tal qual uma fotografia gótica, mãos cruzadas sobre o colo, face inexpressiva, cabeça ligeiramente curvada para o lado. Os olhos permaneciam sempre parados na altura do horizonte, desfocados, olhando para o nada sobre olheiras grossas. Não piscavam nunca. Não fosse seu peito que subia e descia lentamente, um desavisado poderia facilmente tê-la julgado morta.

Então, alguém bate na porta. Toc. Toc-toc. Sem esperar resposta e num movimento lento de durar séculos, a tranca é girada com chave e a mulher de aparência robusta entra.

Alice_through_the_looking_glass— Boa noite, Alice. Como estamos hoje? Melhor dos pesadelos? O sr. Lewis está muito doente e insiste em mandar um olá.

A bondosa enfermeira vai até a janela, abre o vidro, acende algumas velas, e se volta para Alice com um sorriso animado. Esta observa fixamente a parede. O branco das duas mulheres contrastam, gritam. A enfermeira, então, ajeita cuidadosamente Alice na cama, colocando-a recostada em travesseiros estampados com gatos que riem.

— Está na hora de tomar seu remédio da noite, querida. Vamos?

De costas, a enfermeira não tem a visão do espelho, de quem o vento derrubou o pano. E não viu, ou não quis ver, a moça refletida em sua superfície de ângulos opostos, arranhando o vidro, tentando quebrá-lo. Nem ouviu o grito de horrror, silencioso, que emanou de sua boca enquanto Alice engolia as pílulas obedientemente com um copo de água.

Não ouviu… ninguém ouviu. Tudo o que se ouviu foi o pacífico vento de outono balançar as árvores lá fora e o gargalhar histérico de um gato.

Hora de dormir, querida. Boa noite.

Passos. Um último clanque na fechadura, e só.

Havaianas e a Majestosa e Sublime Sinfonia do Universo

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Em um canto não muito frequentado de uma galaxiazinha obscura e sem importância, oito planetas dançam em suas órbitas pitagoricamente harmônicas. Eis que a resultante das ondas eletromagnéticas criadas pelo movimento, integradas às radiações de fundo produzidas pela expansão do Universo, por alguma razão que nada tem a ver com essa história, percorre caminhos errantes através do tecido do espaço-tempo e acaba sendo convertida em ondas sonoras justamente nos receptores acústicos (ouvidos) de um jovem músico erudito, que mora em um quartinho apertado no quadragésimo segundo andar de um prédio decadente na periferia de São Paulo, Terra.

Mera questão de acaso, mas os habitantes desse planeta tendem a se achar — ainda— a última bolachinha do pacote e certamente irão encontrar um nome ou um significado para este evento.

Esse jovem em questão jamais havia composto uma única música que prestasse em sua vida e estava econômica e criativamente em apuros. Passava dias e dias em frente ao piano, apertando a mesma tecla com a testa, um dó menor desesperador que fazia o prédio todo tremer. Se o FBI fosse um órgão atento, veria que a pesquisa no Google por armas de fogo, veneno e bombas caseiras aumentou em 55% só naquele edifício. Sobre o piano, não raro, uma xícara de café frio e amargo como a vida. “Em vias de cometer um auto-assassínio”, também serviria para descrever seu estado de espírito. Até aqui, nada de anormal para um jovem nascido na década de noventa.

Ora, que bom  —  o leitor poderá pensar  —  seus problemas acabaram, não? Esse jovem ficará rico e indiscutivelmente famoso! Afinal, ele ouviu a Majestosa e Sublime Sinfonia do Universo! A NASA irá pagar verdadeiras fortunas para ouvi-la! Manchetes irão dizer “Um músico terá mudado a história da ciência?”

Ah, bem. Pois é. Não falei? Já deram nome para a coisa e tudo. Odeio frustrar suas expectativas, caro leitor. Acontece que o tal compositor estava no meio do banho, numa posição não muito apropriada —  equilibrando-se no pé esquerdo enquanto tentava ensaboar o direito, para ser mais específico  —  no exato momento em que a Majestosa e Sublime Sinfonia do Universo resolveu invadir seus tímpanos com todo o magnânimo esplendor. BAM! Oh, que acordes! Que arranjos! Que orgasmos! Teria feito a Nona Sinfonia de Beethoven parecer mera

Desculpe interromper nossa programação, mas detectamos que o nome de Beethoven foi pronunciado em vão, algo proibido neste planeta. Perdoe o transtorno. Volte trinta notas, troque as mãos e perca um tempo.

Beethoven sees you. Judges you. Beethoven is everywhere.

O susto foi tão grande que o pobre rapaz pulou para trás, escorregou no sabão, deu uma cambalhota perfeita no ar… e bateu a cabeça na privada. Assim, tudo muito rápido e olímpico. Em menos de quê? Quatro segundos? Um recorde! Duas baratas que realizavam profundos estudos comportamentais naquele humano foram pegas completamente de surpresa. Deram-lhe nota 7,5 cada uma apenas pela qualidade do salto. Não sabemos direito o que significa a escala de 0 a 10 das baratas, mas desconfiamos que tenha a ver com o nível de reações idiotas ao ambiente em situações extremas. Procuradas, as baratas asseguraram que, não fosse a aterrissagem um tanto irregular e nada harmoniosa, sem dúvida alguma teriam dado um 8 ou até 9,25. Dez estava fora de questão. Baratas-cientistas são conhecidas por serem criaturas muito criteriosas.

“Foi o ato mais excitante de sua vida em seis anos de pesquisa“ — relataram, emocionadas. —  “Nunca tivemos grandes esperanças com essa cobaia”.

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Baratas estudam humano há mais de seis anos e se surpreendem pela primeira vez. Foto divulgação

Se você tem um mínimo de humanidade e um coração dentro desse peito de trevas  —  o que duvido  —  você estará se perguntando o que houve com a cobaia o pobre do músico. Não se preocupe, leitor! O jovem compositor, que vivia sozinho e era um rapaz um tanto depressivo por não conseguir, dentre outras coisas, arrumar uma parceira de cópula, ter sucesso na vida e resolver a Grande Questão Fundamental, morreu apenas alguns minutos depois, de causas puramente naturais.

Sim, morreu. Gente, o que há de estranho nisso?! Pessoas morrem! Ainda mais se vivas. Além do que, nunca disse que essa história teria um final feliz. Morreu igualmente sozinho, claro, porém imerso na música mais bonita que existe e afogado na água do chuveiro. Ora. É muito mais do que a senhora pode esperar em seu futuro próximo, dona Encarnação, asseguro-lhe. E não, ele nunca soube o sentido de sua breve e vazia existência. Obviamente porque ele ouviu uma música, não um audiobook do Auguso Curry.

Conclusão — análise dos dados

Dois grandes pontos podem ser inferidos disso tudo:

  • Primeiro, que a maior parte dos acidentes domésticos, segundo apontam as estatísticas, ocorrem dentro do banheiro, enquanto você está lavando o pé. Portanto, aconselho que todos parem de teimosia e usem as malditas havaianas que a sua vó e o He-Man insistem em falar toda hora para você usar. Todo mundo usa, Luís Antônio! E afinal de contas, nunca sabemos quando eventos cósmico-aleatórios como a Majestosa e Sublime Sinfonia do Universo irão nos surpreender, não é mesmo? Por isso são chamados de aleatórios. É um bom motivo, é científico e sua avó Bizância sem dúvida aprova.
  • Segundo, que a única pessoa em todo o Universo que ouviu a Majestosa e Sublime Sinfonia do Universo está irrevogavelmente morta. [Desculpe, não pude conter o riso sádico que me escapou agora. Espera um pouco. Hum-rum! Alguém tem um lencinho aí? Obrigado, Douglas]. E que, segundo apontam os físicos teóricos, a probabilidade de algo assim ocorrer de novo durante o período de existência da espécie humana é de aproximadamente toda a extensão do Universo observável para um único neutrino presente no núcleo de um átomo isolado que compõe o pelinho do sovaco de uma formiga albina que ainda não foi descoberta pelos biólogos. Se o leitor conseguiu chegar ao ponto final vivo e saudável, parabéns, você faz parte de uma outra estatística —  que não vem ao caso.

Isto dito, deixo-vos, então, com essa reflexão robusta.

Adeus.

FIM

Post Scriptum: E pensar que… não fosse a ausência de um par de havaianas, esta história teria sido completamente diferente.

Post Scriptum2: Foi a minha vó que mandou eu reforçar isso aqui, eu SEI que vocês já entenderam.